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O Retrato que o Tempo Não Apagou: A Breve Primavera de Maria Auxiliadora

 



Há vidas que passam pelo mundo como um sopro, mas deixam rastros tão profundos que o tempo, em sua imensidão, se recusa a apagar. Olhar para a fotografia na lápide de Maria Auxiliadora Martins de Castro, no Cemitério do Água Verde, em Curitiba, é encarar um mistério congelado em preto e branco. Dali, sob o céu paranaense, os olhos de uma moça lindíssima fitam o infinito, carregando a eternidade de quem partiu no auge de seus 25 anos.
Nascida em São Paulo, no iluminado ano de 1950, Maria Auxiliadora pertenceu a uma geração que viu o mundo pulsar em extremos. Seus olhos jovens testemunharam a história acontecer em ritmo acelerado. Ela era uma menina de oito anos quando o Brasil sorriu com o primeiro título mundial de futebol, e uma jovem de dezenove quando o homem tocou a Lua em 1969. Ela cresceu ouvindo o nascimento da Bossa Nova, a rebeldia colorida da Jovem Guarda, os acordes dos Beatles e o grito poético da Tropicália.
No entanto, a imagem de mundo que ela levou consigo em 1975 também guardava os tons cinzentos de uma época difícil. Filha de uma linhagem de cuidado e instrução — o Dr. Expedito de Almeida Castro e a professora Beatriz Simedo Martins de Almeida Castro —, Maria Auxiliadora viveu sua juventude sob a névoa densa da Ditadura Militar e o peso dos anos de chumbo. Viu as cidades crescerem, as propagandas ufanistas cobrirem as ruas e o mundo se dividir em dois. Mas, dentro de si, sua maior revolução era íntima e sagrada: a maternidade.
Ela era solteira e trazia nos braços o seu pedaço mais bonito de futuro: a filha Danielle, uma bebê de apenas um ano de idade.
O destino, contudo, costuma ser implacável e incompreensível. A tireotoxicose — aquela tempestade silenciosa e avassaladora na tireoide — acelerou o coração da jovem mãe além do que as forças humanas podiam suportar. O diagnóstico frio registrado em cartório fala de insuficiência respiratória e edema agudo de pulmão. A verdade poética e dolorosa é que o corpo daquela moça paulista não aguentou a intensidade de sua própria biologia. O relógio parou cedo demais.
Ficou Danielle. Hoje, uma mulher de 52 anos.
Imaginar os passos da pequena Danielle é caminhar por uma trilha de ausência e amor. Ela cresceu sem o som da voz da mãe, sem o calor do seu abraço ou o cheiro de seu colo. Mas o amor tem formas de se fazer presente mesmo no silêncio. Criada sob as asas protetoras do  avô e da tia enfermeira Simar, Danielle provavelmente teve sua infância preenchida por histórias sobre a mãe.  ( Infelizmente, a mãe de Maria Auxiliadora morreu 8 anos antes dela com apenas 45 anos.) Cada traço de sua beleza, cada fotografia antiga em tom sépia guardada na gaveta servia como um tijolo para construir o altar de suas memórias. E há de se torcer para que o pai, em sua sensibilidade, tenha ajudado a soprar essas lembranças, contando à filha como a mãe sorria e quão feliz ficou com a sua chegada.
Maria Auxiliadora morreu acreditando que o futuro seria feito de viagens espaciais e grandes ideologias, sem saber que o verdadeiro futuro que ela deixou estava na continuidade da vida de sua filha.
Hoje, quando alguém para diante de seu jazigo no Água Verde e decide ler o seu nome em voz alta, a história se recusa a esquecê-la. Maria Auxiliadora Martins de Castro não é apenas uma fotografia bonita em uma pedra de mármore. Ela é a prova de que a beleza e a juventude, quando interrompidas pela saudade, tornam-se eternas. Ela continua viva. Nas árvores do cemitério, no vento frio de Curitiba e, acima de tudo, no coração de uma filha que aprendeu a amar uma imagem que o tempo jamais conseguirá apagar.
Maria Auxiliadora faleceu devido a uma condição autoimune conhecida como Doença de Graves, que não é contraída ou transmitida por fatores externos, mas sim desencadeada por um gatilho biológico pós-parto que levou a um quadro de tempestade tireoidiana fatal em 1975. O óbito ocorreu em decorrência do colapso pulmonar e exaustão cardíaca causados pelo excesso descontrolado de hormônios tireoidianos, em uma época que carecia da velocidade diagnóstica e do suporte de UTI atuais.
 Agradecimentos: Página Rostos do Passado no Instagram