O cloridrato de clomipramina, considerado por muitos especialistas como o medicamento mais avançado para o tratamento do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), está em falta em diversas regiões do país. O problema atinge tanto a rede pública, responsável pela distribuição gratuita, quanto boa parte das farmácias privadas.
Segundo informações oficiais disponíveis no painel de descontinuação de medicamentos da Anvisa, a farmacêutica Sandoz retirou do mercado as apresentações de 25 mg e 75 mg, mantendo apenas as doses maiores. Essa decisão tem causado sérios impactos para pacientes que dependem do remédio para manter o equilíbrio da química cerebral, especialmente no que diz respeito ao neurotransmissor serotonina, fundamental para o controle dos sintomas do TOC.
Impactos para os pacientes
Muitos usuários precisam solicitar aos médicos aumento da dosagem ou troca de medicamento, o que gera insegurança e risco de crises.
A falta de continuidade no uso ainda pode provocar sintomas de abstinência, comuns em medicamentos psiquiátricos.
Acaba que ocorre desespero diante da escassez, já que o tratamento é contínuo e indispensável.
Estratégias da indústria farmacêutica
Há quem interprete a retirada das doses menores como uma estratégia deliberada da indústria:
Forçar o consumo de doses maiores, elevando o custo do tratamento.
Incentivar a migração para medicamentos mais recentes e lucrativos.
Repetir práticas já vistas com outros fármacos, como o clonazepam (Rivotril), que ao longo dos anos teve apresentações menores descontinuadas e substituídas por alternativas como o alprazolam ou por versões de maior dosagem.
Situação de outros laboratórios
EMS/Germed e Merck continuam produzindo clomipramina, mas há relatos de que parte da produção esteja sendo direcionada prioritariamente para a rede pública.
A escassez também pode estar ligada a dificuldades de distribuição e ao aumento da demanda, especialmente após o fim da fabricação das doses de 25 mg e 75 mg pela Sandoz.
No caso do Rivotril, após a transferência da produção da Roche para a Blanver em 2021, houve episódios de desabastecimento devido à mudança das plantas fabris para o exterior. Hoje, as versões em gotas são produzidas na Itália e os comprimidos sublinguais de 2 mg na Espanha, com algumas embalagens específicas (como as de 20 comprimidos) descontinuadas.
A decisão da indústria farmacêutica, somada a questões logísticas, expõe pacientes a riscos clínicos e emocionais, reforçando a necessidade da criação de algum meio mais visível da descontinuidade de doses e medicamentos para os pacientes, como por exemplo, algum aviso junto ou nas embalagens .