Em setembro de 2002, Fernanda Orfali, de apenas 28 anos, foi assassinada com um tiro no peito dentro do apartamento do casal em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo. O autor: seu próprio marido, o empresário Sérgio Nahas, que não suportou ser confrontado após Fernanda descobrir seus envolvimentos com prostitutas, travestis e uso de cocaína. Na época, Nahas tentou sustentar a farsa de que a esposa teria cometido suicídio, alegando depressão. Mas as investigações mostraram que se tratava de homicídio doloso, cometido com intenção de matar.
Justiça tardia e vergonhosa
O julgamento só ocorreu 16 anos depois do crime, em 2018. Nahas foi condenado a 7 anos de prisão em regime semiaberto, pena posteriormente aumentada para 8 anos e 2 meses em regime fechado. Uma punição irrisória diante da brutalidade do assassinato e da dor causada à família da vítima. Ainda mais revoltante: o tempo decorrido entre o crime e a condenação foi quase três vezes maior do que a própria pena. Durante todo esse período, o assassino viveu em liberdade, como se nada tivesse acontecido.
A captura: ironia cruel
Somente em janeiro de 2026, após 24 anos de impunidade, Nahas foi finalmente preso na Praia do Forte, na Bahia, o mesmo local onde havia passado sua lua de mel com Fernanda. A prisão aconteceu graças ao reconhecimento por câmeras de monitoramento, que identificaram o foragido em um condomínio de luxo. Com ele, foram apreendidos 13 pinos de cocaína, três celulares e um veículo Audi — mais uma prova de que, mesmo após o crime, continuava mergulhado em vícios e ostentação.
A defesa que envelheceu mal
Uma das passagens mais vergonhosas dessa história é a alegação da defesa de que Sérgio Nahas estaria “idoso” e “doente”. Ora, aos 61 anos, ele está longe de ser considerado velho para os padrões atuais, em que muitos homens e mulheres nessa faixa etária levam vidas ativas e produtivas. A ironia é inevitável: quem parece realmente envelhecida e adoecida é a própria defesa, que recorre a argumentos frágeis e quase caricatos para tentar justificar o injustificável. É um insulto à memória de Fernanda e à inteligência da sociedade.
Revolta contra a impunidade
É impossível não sentir indignação diante da demora absurda da Justiça brasileira. Um homem condenado por matar a esposa viveu tranquilamente por mais de duas décadas, frequentando locais de luxo e mantendo seus hábitos destrutivos, enquanto a memória de Fernanda era relegada ao esquecimento. A prisão tardia não apaga o sofrimento da família, nem repara o escândalo de um sistema que permitiu que um assassino circulasse livremente por tanto tempo.
*Fontes: Folha, Metrópoles