Recentemente surgiu mais uma daquelas polêmicas que aparecem na internet, ganham repercussão por alguns dias e logo caem no esquecimento. Desta vez, o debate foi provocado por fotos de mulheres compartilhadas com montagens feitas por serviços de inteligência artificial, como o Grok, do X (empresa de Elon Musk). As imagens mostravam mulheres de biquíni e, em alguns casos, nuas. Como acontece em situações semelhantes, parte da mídia e das redes sociais reagiu com discursos inflamados, chegando a defender até mesmo o fim dessas plataformas ou a proibição de qualquer edição envolvendo nudez.
É preciso separar as coisas. Pornografia e nudez fazem parte da expressão humana e não são, por si só, um problema. Montagens e manipulações de imagens são práticas comuns em diversos contextos — da publicidade à arte, passando pela própria indústria pornográfica. O verdadeiro crime está em produzir e divulgar esse tipo de conteúdo sem o consentimento da pessoa retratada. A ausência de consentimento é o que torna a prática abusiva e condenável, não a existência da tecnologia em si.
Proibir plataformas de IA ou restringir radicalmente a edição de imagens íntimas seria uma medida exagerada, conservadora e perigosa. Qualquer ferramenta pode ser usada para o bem ou para o mal; cabe à sociedade punir quem a utiliza de forma criminosa, e não eliminar a tecnologia. Afinal, esses recursos são úteis e necessários em diversas áreas: da satisfação do desejo humano à arte, passando pela ciência e pela curiosidade natural.
É impressionante como discursos apressados e superficiais surgem em momentos de polêmica, muitas vezes sem reflexão adequada, e acabam gerando consequências graves. Onde fica a liberdade artística? Onde fica o direito de produzir e compartilhar conteúdo consensual? A sexualidade continua sendo tratada como tabu em pleno 2026, e é justamente essa visão distorcida que alimenta debates rasos e moralistas.
Vale lembrar: mulheres de biquíni ou com pouca roupa são vistas diariamente em praias, academias, propagandas e redes sociais. Considerar automaticamente esse tipo de imagem como “conteúdo íntimo” é um abuso do bom senso. O compartilhamento de fotos e vídeos de caráter sexual sempre existirá — seja de forma natural, seja por montagem — e muitas vezes até com finalidade informativa ou de curiosidade, como acontece em programas de bastidores ou sites de entretenimento. Proibir isso seria tão absurdo quanto impedir que uma foto de uma celebridade na praia fosse publicada em um portal de notícias.
Portanto, o que deve prevalecer é a responsabilidade e o contexto. Atitudes radicais de proibição ou conservadorismo não protegem ninguém; ao contrário, prejudicam a liberdade, a sexualidade e o avanço da tecnologia. O caminho não é censurar, mas garantir que o consentimento seja respeitado e que os abusos sejam punidos.